Lars Grael começou sua vida esportiva muito cedo. Seu pai era militar do Exército Brasileiro amante da educação Física e grande incentivador do desporto, por isto os Grael sempre gostaram de praticar esportes.
Quando morou em Brasília, Lars freqüentou as aulas de vela do Iate Clube e começou a competir de Optimist e Pinguim. Depois, foi como proeiro do irmão Torben, na classe Snipe, já morando em Niterói, que eles conquistaram os primeiros títulos de expressão: bicampeões brasileiros e Campeões Mundiais. Mas foi no Tornado, o velocíssimo catamarã olímpico, que Lars mais títulos conquistou.
Ao longo da sua vida Lars sempre se interessou por política, uma tradição herdada do pai, que mesmo dentro do Exército teve atuação política destacada, principalmente no final da ditadura militar, quando lutou pela redemocratização do país.
Depois do acidente de 1998 em Vitória, ele foi convidado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso a integrar os quadros dirigentes do INDESP - Instituto de Desenvolvimento do Desporto, uma autarquia ligada ao então Ministério do Esporte e Turismo. De lá, por sua postura sempre firme, correta e apaixonada na defesa do esporte nacional, Lars galgou vários postos chegando a ser Secretário Nacional de Esportes no governo FHC. No final do governo, foi convidado pelo Governador de São Paulo Geraldo Alckmin para assumir a Secretaria Estadual da Juventude, Esporte e Lazer,
cargo que ocupou até março de 2006.
Quando começou sua paixão pela vela? O Seu avô foi um dos responsáveis?
Desde criança todos nós na família sempre velejamos. Minha mãe, meus tios e claro, o precursor de tudo isso, meu avô Preben Schmidt foram grandes influências.
Qual o título mais importante de sua carreira?
As medalhas olímpicas são marcos muito importante para mim, mas os dois sul-americanos da classe Star e o mundial da classe 12 metros, que conquistei depois do acidente também me dão muito orgulho.
O que é fundamental para que você possa realizar um bom trabalho na Vela?
Todo esporte demanda uma boa dose de foco, desprendimento, perseverança e dedicação. Na Vela ainda precisamos estar atentos ao ambiente, os ventos, as correntes, as nuvens. Além de tudo aquilo que um desportista precisa, o velejar tem que desenvolver também uma grande sensibilidade.
Levando-se em consideração que você não teve patrocínio, trabalha para custear suas despesas com regatas, faz palestras para complementar a renda e só treina nos finais de semana, sobre o seu desempenho nas eliminatórias para olimpíada, o segundo lugar foi uma vitória?
Sem dúvida foi. Agora tenho o patrocínio da Light e posso me dedicar um pouco mais à Vela e aos treinos. De qualquer forma ter ficado na frente do Robert Scheidt e do Bruno Prada, que terminaram ganhando a prata em Pequim, e depois ter acabado a pré-olímpica na vice-liderança foi ótimo.
Em sua profissão, qual desafio gostaria de realizar que ainda não o tenha feito?
Ultimamente tenho pensado muito na America’s Cup, a regata mais antiga da vela e o troféu de maior prestígio do nosso esporte. Estou envolvido com o time italiano Argo que quer formar uma tripulação de deficientes físicos para correr a próxima disputa. Além disso, espero que um dia o Brasil possa ter uma equipe para estar lá. Talento para isso nós temos de sobra.
Quais são os fatores que hoje impedem que o Brasil se torne uma potência olímpica?
São muitos. A começar pela própria questão sócio-econômica que embora tenha melhorado muito ainda é um grande fator limitador. Outra coisa é voltar a valorizar o esporte e a educação física na escola. Além disso, uma gestão integrada entre os três níveis de governo e uma legislação esportiva mais moderna também ajudariam muito. E por último, claro, está a questão do investimento. No Brasil hoje, salvo honrosas exceções, o esporte representa menos de 1% dos orçamentos públicos. É muita equação muito complexa, mas acredito que com bom senso e boa vontade um dia chegaremos lá.
Depois de ocupar funções administrativas em 2 governos, o que observou de positivo e negativo dentro da política?De positivo a vontade alguns abnegados que, apesar de tudo, se dedicam de corpo e alma à causa pública. Os exemplos de pessoas altruístas e dedicadas que não deixam a máquina do Estado ruir. De negativo, baste ler os jornais que qualquer cidadão percebe que o sistema político brasileiro precisa de reformas profundas e urgentes, para dizer o mínimo.
É notório que o esporte é uma das grandes saídas para o desenvolvimento de uma sociedade, sendo assim, quais são os maiores empecilhos para difusão dessa mentalidade?
A percepção dos detentores do poder e dos meios econômicos de que o esporte é educacional e profilático. Sabe-se que cada real investido em esporte representa 3 reais a menos em segurança e saúde pública. Mas infelizmente poucos na nossa sociedade têm a coragem de implementar programas ousados de inclusão esportiva.
Superar o acidente foi o maior desafio de sua vida? Quais foram seus maiores pilares de sustentação neste momento tão difícil?
Sem sombra de dúvida. No momento da dor é sempre o amor, da família, dos amigos e até mesmo dos desconhecidos que se solidarizam, que nos conforta e nos faz ter vontade de viver. Uma grande força interior também ajuda muito.
O livro "A saga de um Campeão" é uma lição de vida, de coragem e de superação. Como foi o desenvolvimento deste trabalho e qual foi a repercussão?
Foi uma evolução natural de um desejo meu de compartilhar esta experiência tão dura que vivi. Uma vontade de, por meio da minha história pessoal, poder ajudar os outros. A repercussão foi muito boa e agora estou escrevendo um novo livro que será lançado em 2009 dando continuidade à história do primeiro livro e relatando as experiências que vivi depois daquele primeiro relato.
Sobre projetos sociais como o que a ONG VAA realiza, prestando assistência a crianças com câncer, qual a sua visão? Você acha que este tipo de entidade só existe por que nossos governantes não são suficientemente competentes para fornecer uma estrutura adequada para os cidadãos?
Eu acho que o trabalho da VAA e de outras ONGs sérias é muito valoroso e sempre terá seu espaço, mesmo que o governo não seja tão omisso. Mas é claro que no vácuo da presença adequada do estado, a sociedade tem que se organizar e tentar ao menos suprir um pouco das carências da população.
Ainda neste tema, você desenvolve uma grande ação social denominada "Projeto Grael". Como começou e de que maneira o projeto está ajudando milhares de crianças e jovens no Brasil?
O Projeto Grael, que agora completou 10 anos, começou de uma idéia minha, do meu irmão Torben e do seu companheiro de Vela, Marcelo Ferreira. Nós queríamos dar aos jovens de nossa cidade, Niterói, uma oportunidade praticar um esporte e fugir um pouco da rotina de violência. Hoje, o Instituto Rumo Náutico, que cuida do Projeto Grael tem uma sede própria , oficinas profissionalizantes de mecânica de motores, fibra de vidro, capotaria, marcenaria, informática, etc. Nós já formamos no núcleo de Niterói mais de 5 mil alunos e o modelo do Projeto me inspirou a implantar em nível nacional o Projeto Navegar, quando estive no Governo Federal e o Projeto Navega SP no âmbito estadual. O curioso é que embora nosso foco nunca tenha sido o desporto de alto rendimento, nós já temos muitos campeões oriundos destes projetos sociais. Ao todo no Brasil já são mais de 20 mil jovens que tiveram oportunidade de travar um contato sadio com o meio náutico e isso é motivo de muito orgulho para mim.
Deixe uma mensagem para os leitores da Revista Ong VAA.
Que vocês nunca abandonem seus objetivos e que tenham força e coragem para se dedicar a eles sempre. Que sempre celebrem a vida e tenham alegria de continuar lutando e sonhando.
|